CURADORIA

Com oito filmes, a mostra de cinema do 58° Festival Folclórico de Etnias do Paraná se debruça sobre diversos aspectos culturais, folclóricos e étnicos presentes no Brasil. São dois longas, três médias e três curtas-metragens que nos falam da poesia sertaneja (herança oral trazida pelos trovadores medievais), da dança de resistência criada em um quilombola do Centro-oeste; das migrações do século XX, quando o governo brasileiro incentivou a vinda de europeus para que povoassem e produzissem nos vastos territórios do país; também das imigrações contemporâneas, em sua maioria movimentos ilegais de povos em busca de mais segurança para viver; da nossa (não) identificação com os povos indígenas.

A curadoria procurou formar um vasto olhar acerca dos temas propostos e dos estilos de filmes disponíveis. Trata-se de oito documentários, cada um assentado no seu próprio estilo fílmico e no seu próprio universo de abordagem.

“Walachai”, filme dirigido por Rejane Zilles, aborda uma pequena comunidade de imigrantes alemães localizada no Rio Grande do Sul. A própria cineasta saiu da localidade com nove anos de idade. Walachai é um local que permanece quase que isolado, mantendo sua cultura e dialeto originário.

Também sobre migrantes trantam os filmes “Adiamo In'merica - Os Italianos no Brasil” e “Origem: Destino”. O primeiro, um clássico de 1978, dirigido por Sergio Muniz; o segundo, um registro contemporâneo do cearense Armando Praça sobre a presença africana em São Paulo e Fortaleza. Os dois médias-metragens serão exibidos em uma mesma sessão.

“O Silêncio da Noite É que Tem Sido Testemunha das Minhas Amarguras”, do pernambucano Petrônio Lorena, aborda as glosas tão comuns na tradição oral do Nordeste brasileiro. Centrado na divisa entre Pernambuco e Paraíba, o filme “ouve” poemas de nomes relevantes das localidades por onde o filme passa.

Também do Nordeste vem o curta “Tingo Lingo”, do norte-riograndense Wallace Santos. Nas regiões de Natal e do interior do estado, é comum ao imaginário coletivo a presença dos vendedores de cavaco chinês, uma espécie de biscoito doce que é oferecido ao som de um rústico triângulo.

Já “A Sússia” é um mergulho sobre uma dança típica presente no Quilombola Lagoa da Pedra, Tocantins. A direção é de Lucrécia Dias, uma moradora da própria comunidade. A Sússia é também uma dança de resistência.

Dois filmes abordam a relação entre indígenas e não indígenas: “Teko Haxy”, dirigido por Patrícia Ferreira e Sophia Pinheiro, e “Fantasia de Índio”, de Manuela Andrade. Em “Teko Haxy”, as duas diretoras fazem uma espécie de jogo cênico ao se filmarem. Uma é cineasta e indígena, a outra é antropóloga. Um filme sobre descobertas dos dois lados. Em “Fantasia de Índio”, a diretora busca sua própria ascendência junto ao povo xukurus. Ambos os filmes estarão sendo exibidos em uma mesma sessão.

Aristeu Araujo

O Paraná é um dos estados com maior diversidade étnica do país. Pela fertilidade da terra, e com muitas áreas ainda então a serem exploradas, o Estado “abriu suas portas” para receber imigrantes de várias origens, que, através da produção agrícola e experiência de cultivo dada pelos estrangeiros, alavancou o desenvolvimento da região e gerou divisas para o enriquecimento do Estado. Com esta louvável pretensão, os povos estrangeiros vieram ao Paraná trazendo consigo a riqueza histórica de seus costumes, arte, gastronomia, religiosidade e comportamento. Tudo isto caracteriza aquilo que conhecemos por “folclore”.

Segundo a etimologia da palavra, folclore nos leva a dois termos, quando advindos da língua inglesa: Folk e lore, cujos significados são respectivamente: povo (ou volk, palavra de mesma pronúncia no idioma alemão) e conhecimento. Ao “pé-da-letra”, uma tradução pertinente seria conhecimento de um povo ou, então, conhecimento popular. Na grafia original, da língua portuguesa, a palavra era escrita folk-lore, assim utilizada no Brasil até meados da década de 1930, quando a língua portuguesa sofreu uma reforma, extinguindo-se a letra k. A partir de então, a palavra ganha identidade nacional e passa a ser escrita como conhecemos atualmente: folclore.

De acordo com o dicionário Aurélio a palavra carrega consigo um conjunto de significados que representam o valor cultural de uma sociedade ou comunidade: “1.Conjunto das tradições, conhecimentos ou crenças populares expressas em provérbios, contos ou canções. 2.Conjunto das canções populares de uma época ou região. 3.Estudo e conhecimento das tradições de um povo, expressas nas suas lendas, crenças, canções e costumes; demologia, demopsicologia”. (AURÉLIO, 2005).

O conceito mais sólido de folclore nos é dado pela Carta do Folclore Brasileiro, aprovada em 1951. Segundo o documento: “Folclore é o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social. Constituem-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade. Ressaltamos que entendemos folclore e cultura popular como equivalentes, em sintonia com o que preconiza a UNESCO” (BRASIL, Carta do Folclore Brasileiro, 1951).

Em tempos atuais, o Festival Folclórico de Etnias do Paraná, que sempre lota o auditório do Teatro Guaíra, vem se esforçando a cada ano para despertar o interesse da população pelas culturas étnicas existentes na cidade. A Lei de Incentivo à Cultura abre a possibilidade de novas ações e o desenvolvimento de novas estratégias para atingir o público, despertando a curiosidade e formando plateia neste nicho cultural.

Este Ciclo de Debates tem por objetivo trazer reflexões contemporâneas acerca das imigrações e da diversidade trazida pelo folclore, sobretudo o preservado pelas etnias.

Também explorar a temática nas suas múltiplas abordagens, promovendo reflexão sobre a pluralidade cultural, a miscigenação, a imigração, a questão dos refugiados, o respeito às diferenças, além é claro da estética folclórica das etnias. Neste sentido, serão debatidas questões que envolvam as transversalidades e contrastes étnicos para trazer à luz a importância do folclore como, além de mantenedor de tradições, elo de receptividade e conexão das culturas, um fomentador cultural que representa e revela história e conhecimento.

Élisson de Souza e Silva